sábado, 24 de fevereiro de 2007

A insuportável leveza das personagens

Nota: 3,0

A pedidos, eu venho aqui comentar Crash, e quem me conhece, sabe que eu não gostei muito desse filme não. Então, se eu vou meter o pau nele, que é um filme tão adorado (pelo menos pelas pessoas que eu conheço), então eu tenho que me justificar detalhadamente, e é isso que eu pretendo fazer. Vamos lá.

Crash é um filme do canadense Paul Haggis, escrito e dirigido por ele, que também escreveu o melhor, mas não tanto, Menina de Ouro e tem no elenco “grandes atores” como Brendan Fraser, Matt Dillon e Sandra Bullock, que cada dia que passa fazem mais porcarias. O filme faz um retrato de Los Angeles, uma cidade grande e cosmopolita, e se foca num grupo pequeno de pessoas para generalizar a situação da cidade (ou até o país): Um policial racista, um negro racista, uma dondoca racista, orientais racistas, um político racista, um persa racista, e por aí vai.

O filme apresenta personagens pobremente desenvolvidos, extremamente rasos, sem nenhuma justificativa para o seus atos, e dependentes de um roteiro com um propósito pré-estabelecido. Ou seja, ele tira as conclusões por si só e nos fazem engolir isso. Não nos deixa livres pra pensar e refletir. E para que esse propósito inicial seja concretizado, as personagens fazem besteira adoidado, e o absurdo aí não tem limite. Cagadas estratosféricas. Inimagináveis e inexplicáveis. Talvez até animalescas. É quase Power Rangers. O povo faz mas não pensa. Tipo Stepford Wives. Mas o que importa é que o propósito seja atingido, funcionando, assim, uma história dispersa e supostamente profunda, mas na verdade banal, superficial, sem muito o que contar. Tentam usar o artifício das histórias interligadas, copiando Magnólia, mas passa uma lição de moral muito da pedante, e termina sendo mais racista e preconceituoso do que as próprias personagens do filme.

Vou exemplificar dois absurdos desse filme, os mais gritantes, só pra se ter uma boa visualização do caso, mas há muitos mais, não se preocupem:

Absurdo 1: Qual policial abusaria da esposa de um negro rico de Hollywood? Vejamos isso pelo lado realista: Será que abusariam da mulher do Denzel Washington ou do Will Smith na frente deles em plena rua? Jamais! Esse policial estaria lascado pro resto da sua encarnação. Se ele quisesse fazer algum mal a eles, ele teria levado em consideração o ato obsceno que eles tinham feito anteriormente.

Absurdo 2: Quando uma perua tão rica, fina e nojentinha como a Sandy Bullock depois de esculhambar com o chaveiro latino, abraçaria a sua serviçal, também latina, e ainda chamaria de minha melhor amiga? Never! Ela nunca perceberia isso. O preconceito não deixaria. Preconceito como o proposto pelo filme cega e é alienante. E ainda tem aquela história do telefonema da amiga que não vai lá ajudar porque ela estava fazendo massagem e tal. Tudo balela. Escancarado demais. Irreal. Para mostrar que ela não tinha amigos verdadeiros, e que a empregada era a única pessoa que de fato se importava com ela, não há necessidade de jogar isso na cara dessa forma mastigada, porque na vida real isso não existe. Ou então ninguém precisaria de terapia pra entender e resolver os seus problemas. Tudo já estaria mais claro que água. O que já bate de frente com tudo o que filme prega. Tudo isso subestima a inteligência das pessoas e soa forçado. Coisa de roteiro mal feito mesmos.

E essa porcaria ainda quer passar emoção. Implora o tempo inteiro pra que a gente chore. Chorar por que? Ele irrita mais do que emociona. Falta humanidade. Tudo muito robótico e unilateral. Nada é tão simples como se apresenta nessa grande obra-prima vencedora do Oscar. Só faltou no final do filme todo mundo se juntar, dar as mãos e cantar “We Are The World”. Pelo excesso de clichê que tem nesse filme, não seria tão absurda essa cena ser incluída, não. Deve até ter sido rodada. Deve estar nos extras do DVD. Depois eu procuro.

O que realmente me agradou no filme foram as duas músicas tocadas no final: In The Deep, da Bird York e Maybe Tomorrow, dos Stereophonics. Fora isso, o filme é apenas uma boa forma de se fazer pensar, principalmente para estudantes de cinema, tipo "o que não se fazer". É apenas uma boa idéia, porém mal realizada. E de boas intenções o inferno tá cheio. Se quiser ver uma boa crítica à sociedade americana, veja Beleza Americana, Magnólia ou Eleição. Só pra citar alguns mais recentes. Até Pequena Miss Sunshine funciona muito mais também.

3 comentários:

  1. Meu querido! PEgou pesado mesmo! Mas, assim...eu não tinha olhado por esse lado! Realmente não dá pra entender várias cenas e, depois das que vc falou...putz...o filme se tornou absurdo...gostei! Por isso que gosto de tu,estrupício! =o)

    Conseguiu provar por A+B seu ponto de vista! E aí Caio Braz? Gostou? =oP

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  2. Vítor, sou tua fã mais que nunca depois dessa crítica. Você está bombando. Perfeito, nem eu faria melhor (ahahahhahaa). E outra: senso de humor (negro) impagável, "que cada dia que passa fazem mais porcarias" - bolei de rir. Só um esclarecimento, essa estrutura de histórias interligadas o cinema deve ao Robert Altman. Convem visitar a obra dele. Beijos!

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  3. Eu já vi varios filmes do Altman. Mas nunca gostei de fato de nenhum deles...

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